domingo, 14 de abril de 2013


A menina e o banco

                Primeiro terminal, um monte de gente amarrotada descia do ônibus que parecia agora - com tanto menos gente - até flácido. Ufa!
                Vendo a movimentação da filha, a mãe gritava lá detrás cuidando do outro filhinho no colo.
                - Não vai descer ainda não, Cibele! Fica aí, é no próximo terminal!
                A menininha tentava se explicar:
                - Eu só vou mudar de banco... - magrelinha, cabelo escorrido cor de caramelo.
                A mãe, sentada lá atrás daquele monte de gente descendo, não ouvia.
                - Fica aí, Cibele! É no outro! - nem se via a mãe.
                - Eu não vou descer! Eu só vou sentar ali no outro banco! - e fez de novo um movimento de levantar.
                O gritinho dela era muito baixo e a mãe ainda estava aflita com umas sacolas que equilibrava.
                - Cibele, fica aí! Senta!
                - Aff... - apoiou o queixo nas mãos angustiada com a situação.
                Mirou pros dois lados e fez o gesto rebelde: se levantou e foi em direção pro outro banco... quando quase se sentando, a mãe reparou na cena:
                - Cibele!! Não é nesse terminal!!
                Desviou de um monte de pernas e sentou correndo no banco tão desejado e explicou didaticamente, toda cuidadosa:
                - Eu não vou descer, mãe..., vou ficar sentada nesse banco daqui!
                - Ah...! - a mãe entendeu afinal - Senta aí, fica sentada, hein! - a ordem aí já veio mais adocicada.
                - Tá bom. - murmurou olhando lá fora pela janelona.
                O carro já arrancava de novo, se tremendo todo.  

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


se o indo passar
vamos todos ficando
sem depois

assombrados
com o estagnado mesmo
do agora

fincados com os pés
numa terra
que não gira

com os olhos travados
num foco
imóvel

com um pensamento
que não muda
nem se repete

e o infinito instante
será ele por si só
ali

sendo
com nós
incluídos

mortos pro tempo
mas dentro de um sentimento
atemporal

quarta-feira, 24 de outubro de 2012


- Quanto está custando um vereador?
Perguntou o prefeito ao seu assessor.
- Qué isso, a integridade não tem preço, seu doutor!
- Ah, não vai me dizer que é destes meninos bobos sonhador, que ainda não sabe que aqui é pra sugar mais seiva que a gente arranca o espinho e enfeita a flor?
O funcionário não entendeu aquele tom provocador, nunca tinha percebido que o homem pra quem trabalhava podia ser tão enganador. Aquele cara alto, todo encantado, agora parecia amaldiçoado entupido de egoísmo e rancor. Não mais o herói que protegia a vítima da bala, mas ele mesmo o próprio atirador, fingia que apagava o fogo que ele mesmo fora o ateador.
Então, retomou-se de ar e soltou uma resposta ao seu inquiridor:
- À sua pergunta nem preciso me fazer pesquisador, um vereador nem anda cobrando tão caro pra se por a seu dispor, com certeza um preço que pode ser pago por um prefeito sem nenhum valor.
Saiu de lá escorraçado, chutado, xingado de traidor.
Naquela noite não dormiu, suou frio debaixo do cobertor. Formulou vinganças, tinha muitas provas a seu favor. Juntou-as numa pasta e de manhã foi ao gabinete de seu ex-empregador.
O prefeito ficou assustado e se escondeu atrás de um “estou ocupado, fale pra voltar mais tarde, por favor”.
O homem percebendo que não iria conseguir ir adiante, como era de se supor, largou ao pé da porta a pasta com os papéis e uma flor, deixando ao léu ali toda a corda da forca do prefeito pra ele fazer com ela seja lá o que for.  

a formiga carrega seu pedaço de fruta
e não se assusta
com gigantes como eu

sou
pelos aliados
que o são
por serem

amanhã
à tarde
ah!

indo e sendo
o rio vai descendo
pro sempre